MENOPAUSA

A dor que ninguém associa aos hormônios: o que a menopausa faz com os músculos e as articulações

Dores musculares, rigidez nas articulações e fadiga sem causa aparente estão entre os sintomas físicos menos reconhecidos da menopausa e do climatério, e podem começar anos antes da última menstruação.

Mulheres entre 45 e 55 anos têm quase o dobro de chance de desenvolver dor crônica, segundo a North American Menopause Society. A razão, na maioria dos casos, não está numa lesão nem numa doença reumatológica. Está na queda do estrogênio. Ainda assim, boa parte dessas mulheres passa anos consultando ortopedistas e reumatologistas, fazendo exames que não encontram nada, sem receber o diagnóstico correto.

“Ela acordava com os joelhos travados. O ombro doía sem motivo aparente. Sentia os dedos rígidos pela manhã e uma fadiga nas pernas que nenhum exame conseguia explicar. Foi ao ortopedista. Depois ao reumatologista. Fez raio-x, ressonância, tomografia. Os laudos voltavam sem achados relevantes. Os médicos diziam que era estresse, que era postura, que era a idade”, conta Dra Fabiana Bersch, ginecologista

Ela tinha 47 anos. E tinha estrogênio em queda. Histórias como essa repetem-se nos consultórios de ginecologia com uma regularidade que ainda surpreende. A dor física causada pelas alterações hormonais da transição para a menopausa, fase que costuma começar entre os 40 e os 50 anos, é um dos sintomas menos reconhecidos do climatério e, por isso mesmo, um dos que mais adia o diagnóstico e o tratamento adequado.

O que o estrogênio tem a ver com a dor
O estrogênio não é apenas um hormônio reprodutivo. Ele age diretamente nos tecidos musculares, nas cartilagens e nas articulações, funcionando como um agente anti-inflamatório natural do organismo. Quando os níveis caem, como acontece na transição para a menopausa, o corpo perde parte dessa proteção. As articulações ficam menos lubrificadas, os músculos perdem massa e força, e o limiar de percepção da dor diminui. O resultado é um corpo que sente mais e recupera mais devagar.

Um levantamento da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor revelou que 93% das mulheres no climatério relataram dor musculoesquelética, com início dos sintomas entre cinco e sete anos antes da menopausa. De acordo com o estudo, os locais mais afetados foram a coluna vertebral, os joelhos e os ombros.

"O que mais vejo no consultório são mulheres que passaram por vários especialistas, fizeram uma bateria de exames e voltaram para casa sem resposta. A dor estava lá, real, intensa. Mas ninguém pensou em olhar para os hormônios. E é exatamente aí que costuma estar a explicação.", relata Dra. Fabiana especialista e menopausa e reposição hormonal.

Por que o diagnóstico demora tanto
O problema começa pela fragmentação do cuidado. A mulher com dor nas articulações vai ao ortopedista. Com dor generalizada e fadiga, vai ao reumatologista. Com rigidez muscular, pode passar pelo neurologista. Cada um olha para a sua área, medica o sintoma que vê, e o quadro continua sem resolução. Isso acontece porque a dor musculoesquelética do climatério não aparece nos exames de imagem convencionais. Não há lesão estrutural. Há deficiência hormonal.

"A mulher que tem mais de 40 anos, dor nas articulações sem causa estrutural identificada e ainda relata insônia, cansaço e alteração de humor está me dando um quadro clínico muito claro. O climatério não avisa com uma placa. Ele se instala aos poucos, e as dores físicas podem ser o primeiro sinal que o corpo manda.", explica a ginecologista.

A rigidez matinal, a dor nos joelhos ao subir escadas, o ombro que trava, as mãos que doem ao acordar. São sinais de que algo mudou no ambiente hormonal do corpo. Não uma fatalidade, mas um sintoma com nome e com tratamento.

O que pode ser feito
O primeiro passo é reconhecer que dor também é sintoma hormonal. Uma avaliação clínica completa, com histórico menstrual e contexto de vida, já abre o caminho para entender o que está acontecendo. Em muitos casos, a terapia hormonal, hoje muito mais segura e personalizada do que a geração anterior conheceu, é parte central do tratamento e traz alívio significativo das queixas físicas.

Exercícios de resistência muscular, alimentação anti-inflamatória, suplementação adequada e bom sono também fazem diferença real. Não como substitutos do cuidado médico, mas como parte de um plano que considera a mulher por inteiro.
Menopausa não é só fogacho e irregularidade menstrual. É uma mudança profunda no funcionamento do organismo, e o corpo faz isso saber de muitas formas. A dor é uma delas.

"Quando a mulher finalmente entende de onde vem aquela dor que ninguém conseguia explicar, muda alguma coisa nela. Não é só o alívio físico. É saber que o seu corpo não estava mentindo.", conclui Dra. Fabiana Bersch