OPERAÇÃO GORJETA

Empresário recebeu 95% das emendas do Ibrace, aponta investigação

 

 

A decisão judicial que motivou a nova etapa das investigações em Cuiabá aponta que o Instituto Brasil Central (Ibrace) era usado como uma entidade de passagem para movimentar recursos públicos da Câmara Municipal. Conforme o relatório da Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), em abril de 2025 o instituto recebeu R$ 1,35 milhão em emendas parlamentares e, em poucos dias, transferiu 95% desse valor (R$ 1,29 milhão) para a empresa Sem Limite Esporte e Eventos, controlada pelo empresário João Nery Chiroli, também proprietário da Chiroli Uniformes.

O documento da investigação indica que o Ibrace teria sido cooptado pelo grupo criminoso para dar uma aparência legal aos repasses. Embora o instituto assinasse os termos de fomento para a realização de corridas de rua em Cuiabá, a execução das atividades era feita integralmente pela empresa de Chiroli, que atuava como uma espécie de representante informal do instituto junto à prefeitura.

A operação policial, denominada Gorjeta, foi deflagrada na última terça-feira (27) e apura um suposto esquema de desvio de emendas destinadas a eventos esportivos. Segundo a investigação, o dinheiro retornava ao vereador Chico 2000 (sem partido) após ser “pulverizado” por empresas ligadas a Chiroli. A Justiça autorizou 75 medidas judiciais, incluindo o afastamento do parlamentar e o bloqueio de bens dos envolvidos.

Associação entre Chiroli e o vereador

A ligação entre o empresário e o vereador afastado foi reforçada por conversas de WhatsApp extraídas pela perícia. As mensagens mostram que, antes mesmo da assinatura dos contratos, Chiroli e Chico 2000 já discutiam a agilidade na formalização dos termos e a realização dos eventos esportivos.

De acordo com a apuração, o modelo do esquema funcionava de forma rápida: o parlamentar direcionava emendas ao Ibrace, o instituto repassava a maior parte dos recursos à Sem Limite, e, em seguida, o valor começava a ser distribuído para pagar despesas pessoais do vereador. Em um dos exemplos citados, R$ 20 mil foram transferidos a um pedreiro que trabalhava em obras na propriedade particular do parlamentar.

“Sede fantasma” e irregularidades

A investigação também identificou que o Ibrace divide endereço com outras organizações suspeitas na região da Morada do Ouro, em Cuiabá, incluindo o Instituto Social Mato-Grossense (ISMAT) e a empresa MT-Mensura. A apuração junto às concessionárias Energisa e Águas Cuiabá mostrou que não há contas de consumo registradas em nome do Ibrace no local, apenas da MT-Mensura, o que reforça a suspeita de que o instituto foi criado ou utilizado apenas para desviar recursos públicos.

 

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