A experiência sempre teve seu lugar especial reservado no mundo político. Tanto que muitas vitórias eleitorais se deram pelo currículo do candidato.
Ou seja, pela sua história, vida e sua postura, do que propriamente pelo seu programa de Governo ou suas propostas levadas às ruas.
Assim podem ser resumidas as últimas manifestações no tocante ao posicionamento do senador Jayme Campos (União), que não arreda o pé de sua pré-candidatura ao Governo de Mato Grosso.
Isso, na prática, coloca em risco uma eventual candidatura do grupo que comanda o Estado desde 2018, nos dois mandatos de Mauro Mendes, tendo o atual governador Otaviano Pivetta (Republicanos) como seu vice e do qual tanto Jayme, em 2018, como Wellington Fagundes (PL), em 2022, foram beneficiários por comporem as chapas majoritárias e ajudarem a eleger como foram eleitos.
A emblemática entrevista do ex-governador, ex-senador e ex-ministro Blairo Maggi (PP), megaempresário do agronegócio, no dia 31 de março - em festiva solenidade de transmissão de cargo de Mauro para Pivetta, num dos maiores buffet de festas do Brasil -, de que eles deveriam insistir em ter o senador Jayme como aliado em vez de adversário, demonstra que uma sucessão de erros e conveniências pessoais influenciam as decisões do "núcleo duro" no entorno do ex-governador, que, sem construir o consenso necessário, prefere ir para o embate eleitoral, sem mensurar as consequências.
"Uma eleição com todo mundo junto já é difícil, separando fica mais complicado", profetizou Blairo Maggi, sinalizando ainda que Pivetta, no comando do Governo do Estado e Mauro Mendes como candidato a uma das duas vagas para o Senado por Mato Grosso, devem insistir com Jayme em tê-lo, fazer uma composição em que ele esteja junto e sendo contemplado", disse Maggi.
Jayme Campos, aliás, foi um dos principais articuladores da ida de Mauro Mendes para o então Democratas (DEM, hoje União Brasil), em 2018, e que neste ano se federalizou com o Progressistas (PP), formando da Federação União Progressista (UP).
Em 2018, quando Mauro liderou a disputa e venceu as eleições com 840.094 votos (58,69% de votos válidos), foram também eleitos senadores Selma Arruda (PSL) e Jayme Campos (União).
A experiência deste pleito de 2018, bem como o histórico das anteriores, demonstra ser muito difícil, complicado e fora da curva a possibilidade de uma chapa eleger o governador e os dois senadores, pela atual estrutura político-partidária e pla necessidade de coalizão, visando uma futura gestão e suas nuances.
A última vez que isto aconteceu foi em 1986 - portanto, há 40 anos -, quando disputaram as eleições ao Governo Carlos Bezerra (MDB) e Frederico Campos (PMB) e que teve 15 candidatos às duas vagas de senador, sendo quatro do MDB, que elegeu Márcio Lacerda e Louremberg Nunes Rocha.
Em 2018, menos de um ano depois das eleições, Selma Arruda foi cassada pela Justiça Eleitoral e Carlos Fávaro (PSD), então terceiro mais votado, conseguiu uma liminar no STF e assumiu o mandato, até que, em novembro de 2020, em plena pandemia da Covid-19 e em conjunto com as eleições municipais, disputou a eleição suplementar e venceu.
Voltando quatro anos antes, em 2014: o mesmo grupo de Mauro Mendes, Otaviano Pivetta, Jayme Campos etc... apoiou a eleição de Pedro Taques (PDT) ao Governo de Mato Grosso. Ele ganhou com 833.788 votos (57,25%)dos votos válidos). Quatro anos depois, Mauro e o mesmo grupo fizeram pouco mais de 5 mil votos de diferença, o que demonstra que o eleitorado era o mesmo e que apenas abandonou a reeleição de Taques.
Em 2014, o candidato ao Senado na única vaga era Jayme Campos, que desistiu da disputa, abrindo espaço para o então deputado federal de seis mandatos, Wellington Fagundes (PR), que foi eleito para seu primeiro mandato, sendo reeleito em 2022, na composição de chapa da Mauro Mendes.
Todo este histórico demonstra que o grupo político do ex-governador Mauro Mendes se fragmentou. O que pode levar à construção de candidaturas como a de Jayme Campos e Wellington Fagundes ao Governo de Mato Grosso, e que nos últimos anos caminharam juntos e neste ano podem estar em campos opostos, o que torna os resultados mais incertos e duvidosos.
Para piorar a situação, o MDB, hoje sob o comando da deputada estadual Janaina Riva, que disputa uma das duas vagas para o Senado, e com reais chances de vitória, assim como Carlos Fávaro, que compôs chapa com Mauro e Jayme em 2018, também almeja um novo mandato de senador, após quase quatro anos como ministro da Agricultura do Governo Lula (PT), que nunca teve vida fácil entre os eleitores de Mato Grosso, vai tentar seu quarto mandato presidencial.
Todo este cenário demonstra como é intrincada a construção deste entendimento.. E o ex-governador Mauro Mendes, mesmo após dois mandatos, ao demonstrar falta de traquejo político, acabou cedendo à pressão de interesses econômicos para definir o candidato a sua sucessão.
E o fez de forma pessoal, se esquecendo que era chefe do Executivo, que reuniu diversas correntes partidárias para conquistar seus dois mandatos, bem como era presidente do União Brasil em Mato Grosso, que, segundo seu estatuto, prevê a preferência por candidaturas próprias, em vez de seguir a reboque de outras siglas de menor poder político.
Por isso, o alerta de Blairo Maggi, de que abrir mais candidaturas torna os resultados eleitorais incertos e amplia os riscos.
"Se você abrir novas candidaturas, sempre vai dar mais trabalho. E o senador Jayme Campos não é um pessoa desconhecida: já foi governador, senador duas vezes e prefeito de Várzea Grande por três. É uma liderança antiga mais atuante", disse Maggi, em um duro recado para os atuais ocupantes do Palácio Paiaguás, para que atentem para os fatos e para o momento político.
"Sou daqueles que gostaria de ter Jayme Campos com este grupo", arrematou o líder do PP, com sua experiência e visão de futuro de que o jogo eleitoral é disputado na construção de entendimentos, e não com fragmentação de lideranças.
O recado foi tão bem compreendido noia 31 de março, quando Otaviano Pivetta assumiu o mandato: nas horas que se seguiram, o novo chefe do Executivo Estadual se reuniu com o senador por mais de uma hora, mas nenhum deles foi assertivo de que podem caminhar juntos.
Pivetta também foi emblemático em suas respostas, ao declarar que é vizinho do senador Jayme Campos (eles moram no mesmo edifício) e que não vão se transformar em inimigos por causa de uma eleição. O que demonstra não ter havido entendimento com o senador.
Mesmo assim, na segunda-feira (6), um novo sintoma de que o senador Jayme Campos não vai recuar de sua postulação veio no pedido de demissão de César Miranda, homem de confiança de Jayme e que foi indicação do União Brasil para ser secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, cargo que ocupava desde janeiro de 2019, quando Mauro Mendes assumiu o Governo de Mato Grosso e chegou a ser confirmado como titular da gestão Pivetta.
Nos últimos dias, quando se afunilou o prazo da janela partidária para os detentores de mandatos eletivos proporcionais (deputados federais e estaduais) trocarem de sigla sem perderem o mandato, também se encerrou o prazo para desincompatibilização daqueles que exercem cargos no Executivo. Como Mauro Mendes e e outros que desejam disputar as eleições de outubro próximo.
Mas, o que se viu foi um verdadeiro festival de traições, que levaram muitos a deixarem suas siglas em busca de espaço. Principalmente, no União Brasil, que foi sendo desidratado pelo governador e por seu grupo com interesse em migrar para o PRD, que, de última hora, pegou a todos de surpresa com a destituição da Comissão Executiva Provisória em Mato Grosso.
Mauro Mendes, na semana passada, tentou uma intervenção da Executiva Nacional do União Brasil na Executiva Regional em Mato Grosso, para que o partido fosse entregue ao seu compadre, Mauro Carvalho, que foi defenestrado da presidência do PRD pela Executiva Nacional, sob o argumento de que conduzia a sigla para interesse próprios, em vez do conjunto de interesse da legenda.
Todos estes fatores se somam a uma série de confrontos ocorridos entre o ex-governador Mauro Mendes e o senador Jayme Campos, que, pelo visto, não cabem mais no mesmo espaço político.
O que pode ter consequências desastrosas para o União Brasil, principalmente porque o "núcleo duro" no entorno de Mauro Mendes é assombrado pelo efeito Dante de Oliveira, o primeiro governador reeleito no mesmo mandato e que deixou o Governo com mais de 70% de aprovação e a certeza de que seria um dos dois senadores eleitos pelo Estado.
Em 2002, Dante e seu grupo político desidrataram os principais aliados políticos, como Mauro Mendes faz agora. E o resultado foi a eleição de um desconhecido da política partidária de então, o megaempresário Blairo Maggi, que rompeu o ciclo político e ganhou duas eleições seguidas e mudou os rumos da política partidária.
Vale registrar que Maggi, enquanto governador, em 2008, tentou em vão fazer de Mauro Mendes prefeito de Cuiabá, mas não conseguiu. Isso se tornou fato consumado em 2012. E, mesmo sendo favorito para disputar a reeleição em 2016, de última hora, desistiu e cumpriu o mandato na integralidade.
Dois anos depois, em 2018, disputou o Governo de Mato Grosso e se sagrou vencedor, o mesmo acontecendo em 2022.
Resta saber se Mauro Mendes, que já desincompatibilizou do mandato de governador de Mato Grosso, vai manter sua postulação e se ela será acolhida pelo eleitorado, diante do cenário adverso que se revela pela falta de unidade, que foi fundamental em 2018 e 2022.
FOTO CANAL RURAL








