Os investigados presos na Operação Tomada de Contas começaram a ser encaminhados ao sistema prisional após os procedimentos realizados na sede da Polícia Federal, em Cuiabá. O presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo de Almeida, ficará custodiado no Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), na Capital. Já os advogados e assessores jurídicos investigados foram encaminhados ao Complexo Penitenciário Ahmenon Lemos Dantas, em Várzea Grande, onde deverão permanecer em sala de Estado-Maior.
A transferência ocorreu sob forte esquema de segurança. Sérgio Ricardo deixou a sede da PF em um comboio escoltado e seguiu diretamente para a unidade do Bope. Ao todo, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a prisão preventiva de seis pessoas no âmbito da operação, que investiga um suposto esquema de desvio de recursos públicos no TCE-MT.
Além do presidente da Corte, estão entre os presos o consultor jurídico-geral Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, o assistente jurídico Gustavo Fernandes da Silva, o assessor jurídico Felipe José Glinke, a chefe de gabinete da Presidência, Roseli Loss, e o secretário executivo de comissão permanente Adriangelo Barros Antunes.
CONSELHEIROS AFASTADOS
A decisão do STJ também atingiu outros integrantes da cúpula do Tribunal de Contas. O corregedor-geral Guilherme Antônio Maluf, o conselheiro José Carlos Novelli, o conselheiro Alisson Carvalho de Alencar e o conselheiro aposentado Valter Albano da Silva foram alvos de medidas cautelares e afastamentos.
As determinações incluem restrições de acesso às dependências e aos sistemas do tribunal, suspensão de funções públicas, proibição de contato com servidores e bloqueios patrimoniais, conforme as medidas aplicadas individualmente a cada investigado.
Também foram alcançados pelas determinações judiciais:
- Maurício Marques Júnior, secretário executivo de Orçamento, Finanças e Contabilidade;
- Edson Luiz Ribeiro de Oliveira, técnico de controle público externo e coordenador;
- Carlos Alexandre Pereira, auditor público externo e secretário de Controle Interno;
- Eneias Viegas da Silva, técnico de controle público externo e secretário de Gestão de Pessoas;
- Adjair Roque de Arruda, fiscal de tributos da Sefaz cedido como secretário executivo;
- Carlos Felipe de Oliveira Almeida, assistente técnico-financeiro;
- Olavo Lage Filho, secretário de Tecnologia da Informação;
- Jocimauro Bento do Carmo, técnico de controle público externo;
- Carlos Romeu Rodrigues Medeiros, consultor técnico-jurídico;
- Vitor Turri Romano, chefe de gabinete de comissão permanente;
- Márcio Antônio Silvério, assessor técnico-jurídico.
INVESTIGAÇÃO APONTA R$ 48,4 MILHÕES
As apurações da Polícia Federal apontam a existência de uma estrutura de movimentação financeira que teria desviado recursos públicos por meio de pagamentos irregulares e repasses a integrantes do Tribunal de Contas. Conforme os elementos apresentados ao STJ, cinco conselheiros teriam sido beneficiados por um esquema que movimentou aproximadamente R$ 48,4 milhões.
O presidente Sérgio Ricardo aparece entre os principais beneficiários identificados individualmente pela investigação. Segundo os dados reunidos pela PF, ele teria recebido R$ 15,44 milhões em menos de dez meses.
A decisão que autorizou as medidas cautelares, assinada pelo ministro Og Fernandes, relator do caso, descreve duas frentes principais de atuação do suposto esquema: a utilização de contratos e pagamentos a fornecedores para viabilizar repasses irregulares e uma estrutura de pagamentos que teria funcionado como uma espécie de rachadinha, abastecida com recursos destinados ao Tribunal.
CONTRATOS E PAGAMENTOS
Uma das frentes investigadas envolveria a publicação de portarias que simulavam uma situação de restrição orçamentária e determinavam a suspensão de contratos da Corte de Contas. Segundo a investigação, a justificativa de falta de recursos não seria compatível com os dados financeiros oficiais do órgão.
O orçamento do TCE-MT passou de R$ 763,8 milhões em 2023 para R$ 786,7 milhões em 2024 e R$ 826,3 milhões em 2025. No mesmo período, os pagamentos mensais teriam aumentado de R$ 67 milhões para R$ 80 milhões, mesmo durante a suposta restrição financeira.
A investigação aponta que a suspensão contratual teria sido utilizada como instrumento de pressão sobre fornecedores. Empresas selecionadas teriam recebido aumentos expressivos nos pagamentos após os atos administrativos, mediante a exigência de devolução de parte dos valores a integrantes do grupo investigado.
A segunda frente envolveria pagamentos realizados a partir dos duodécimos repassados ao Tribunal pelo Tesouro Estadual. De acordo com a PF, os recursos teriam sido movimentados por meio de fornecedores e ordens bancárias avulsas para ocultar os pagamentos destinados aos investigados.
Enquanto os registros divulgados no Portal da Transparência indicavam aproximadamente R$ 2,22 milhões em remunerações para os sete conselheiros envolvidos, os extratos bancários analisados pela investigação apontaram créditos de R$ 48,46 milhões.
Entre os valores individualizados pela PF estão R$ 15,44 milhões atribuídos a Sérgio Ricardo, R$ 32,31 milhões a Grhegory Maia, R$ 15,89 milhões a Gustavo Fernandes, R$ 10,64 milhões a Guilherme Maluf e R$ 9,93 milhões a Felipe Glinke.
SAQUES E DINHEIRO EM ESPÉCIE
Outro ponto destacado na investigação é a realização de saques de grandes quantias em dinheiro vivo. Segundo a Polícia Federal, parte das retiradas teria ocorrido em uma agência do Sicoob instalada dentro da própria sede do TCE-MT.
Somente Sérgio Ricardo teria realizado 150 saques em espécie, que totalizaram R$ 15,64 milhões. Desse montante, R$ 15,47 milhões teriam sido retirados diretamente no caixa da instituição financeira.
A chefe de gabinete da Presidência, Roseli Loss, também aparece na apuração, com movimentações de R$ 3,52 milhões em retiradas. Parte do dinheiro teria sido repassada em mochilas a Adriangelo Barros Antunes, que, conforme os dados investigados, movimentou R$ 2,28 milhões.
No conjunto das operações analisadas, a PF identificou R$ 75,85 milhões em movimentações consideradas suspeitas durante um intervalo de 294 dias de 2025. Diante dos indícios, a Justiça autorizou o sequestro de bens dos investigados, com alcance de até R$ 145 milhões.
Durante o cumprimento dos mandados, a Polícia Federal apreendeu grandes quantias em dinheiro, relógios de luxo, veículos de alto padrão e uma expressiva quantidade de vinhos. Imagens divulgadas pela corporação mostram maços de cédulas de R$ 100 e R$ 50, além de dólares e euros.
FOTO: REPRODUÇÃO REPORTER MT






